Exposição retoma aspectos pouco conhecidos da obra de Décio Pignatari

Exposição retoma aspectos pouco conhecidos da obra de Décio Pignatari O poeta paulistano Décio Pignatari (Divulgação)

 

Poeta, ensaísta, tradutor, professor, publicitário, semiologista, Décio Pignatari converteu a multiplicidade das atividades que desempenhou na forma da sua obra. Além da poesia concreta – iniciada na década de 1950 junto dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos -, Pignatari também criou obras em vídeo e serigrafia, por exemplo. Menos lembrada, esta faceta aparece na exposição “Décio Pignatari – Na arte interessa o que não”, em cartaz a partir da próxima quarta (22) na Galeria Millan, em São Paulo.

“Décio tinha uma veia satírica, uma veia erótica e uma aproximação com a chamada cultura trash que é pouco lembrada”, afirma o poeta e curador João Bandeira. “A exposição tenta trazer um pouco dessa produção que não está ligada ao seu projeto poético da década de 1950 e que aprisionou de certa forma a recepção da sua obra.”

Esse aspecto menos conhecido do poeta pode ser visto nas criações sonoras, vídeos, colagens e serigrafias, reunidas entre cerca de 50 obras na exposição. É o caso da série “Oswald psicografado”, composta de 16 pranchas de desenhos em que Pignatari homenageia o criador da poesia pau-brasil ao simular uma escrita mediúnica que começa a se transformar em desenho. Ou de um poema inteiramente visual baseado no verso “Colombo! fecha a porta de teus mares!”, de Castro Alves.

Outra que foge ao projeto concreto, “Cri$to é a solução” se resume a uma nota de um dólar estampada com Jesus Cristo. Ela estará disponível, em impressão fac-símile, para ser levada pelos visitantes. Também foram reproduzidos no formato original, para serem manipulados, os poemas-livros Life (1958) e Organismo (1960), esgotados desde os anos 1960. Um contato que, como pretendia Décio, muda a experiência poética ao implicar o próprio livro, sua fisicalidade e sua visualidade no ato da leitura.

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Em Organismo, por exemplo, a leitura torna-se quase uma ação cinética, como o movimento de zoom em um filme. Ele é composto de fotogramas que são ampliados a cada virar de página, levando a um “close-up final” -que já não é mais palavra, mas mistura de ícone e símbolo. Já da produção sonora, destaca-se a paródia de um jingle intitulada Brazil, my mother. Com composição de Rogério Drupat, com quem colaborou ativamente nos anos 1970 e 1980, o poema critica o imperialismo norte-americano na cultura brasileira.

Pensamento iconográfico

Além do compositor, Pignatari também contribuiu e teve relações artísticas com o artista plástico Hélio Oiticica e o cineasta Júlio Bressane, influências que podem ser percebidas ao longo de dois andares da Galeria Millan dedicados ao poeta. Também estão expostas obras relacionadas à sua produção concreta, como o manuscrito original de Beba Coca-Cola.

Para Dante Pignatari, filho do poeta e responsável pelo seu acervo, trata-se de uma oportunidade de ver como Décio pensava a passagem da palavra à não-palavra, ao pensamento iconográfico. “Embora não seja vasta, sua obra tem uma grande diversidade. É um universo inteiro que se abre para a linguagem, para a poesia, para a mistura de poesia e visualidade em que às vezes a palavra nem está presente”, afirma.

Com aproximadamente 15 mil imagens e manuscritos, o acervo de Décio Pignatari começou a ser digitalizado em 2015 por Dante e por Adelaide Ponte, curadora de artes visuais do CCSP.  Curador da mostra, João Bandeira conta que, além de despertar o interesse das pessoas a aspectos menos conhecidos da obra do poeta, a exposição também pretende ressaltar a pertinência da sua obra nos dias de hoje.

“No cenário contemporâneo, lamentável do ponto de vista politico, com um avanço da direita altamente conservadora, a obra de Décio ainda tem muito a dizer”, enfatiza o curador. “Além das inovações formais e da forma como lidou com a linguagem, ele apontava com seus poemas para aspectos da cultura brasileira, seus problemas congênitos, que ultrapassam o universo da poesia.”

“É uma oportunidade de revisitar e redescobrir esse universo absolutamente revolucionário de Décio e que não se resume à poesia concreta”, completa Dante Pignatari. “Ele é muito ignorado e até boicotado no Brasil, e essa exposição mostra a força de sua poesia, mesmo que tentem soterrá-la.”

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