A vítima sempre tem razão? O estatuto da vítima e a economia da credibilidade

A vítima sempre tem razão? O estatuto da vítima e a economia da credibilidade Obra sem nome da artista Carole Brémaud, (1987)

 

A vítima sempre tem razão? é o título bastante provocativo do novo livro do filósofo Francisco Bosco. A busca por traçar o nascimento do que o autor chama de “novo espaço público brasileiro” é o cenário em que o texto se desenvolve. De acordo com Bosco, este novo espaço seria o campo das lutas identitárias, das redes sociais digitais e de uma certa formatação do debate público – uma espécie de nova pólis, mediada pela tecnologia, consolidado na atuação virtual dos movimentos “ identitários”.

Me permito as aspas a fim de propor uma reflexão sobre o uso deste termo, como se “ identidade” fosse sempre um atributo dos subalternos, enquanto que, à norma, resta a ideia de normalidade, e não de identidade. É importante entender que as lutas por reconhecimento são identitárias apenas na medida em que demandam direitos, justiça social e dignidade em relação aos sujeitos marcados pelos estigmas historicamente produzidos acerca desta ou daquela identidade.

Como se produz o conhecimento?

A temática do conhecimento é central no livro de Francisco Bosco e reintroduz, segundo a terminologia contemporânea, o debate sobre o que é cognoscível e como se pode conhecer em relação às formas e experiências de vida subalternizadas, distintas da norma e marginalizadas. Em outros termos, pode uma pessoa cisgênero compreender a condição das pessoas trans e falar a respeito delas politicamente? A fala de um homem sobre feminismo é, naturalmente, enviesada?

Quem quer que tente responder a esta questão precisa fazê-lo contextualizadamente, considerando portanto que a fala/palavra, aquilo que aviva o mundo da pólis, do poder e da política, não é acessível igualmente a todas as pessoas. As desigualdades nas relações de poder, produzem, inevitavelmente, desigualdades nas credibilidades e no poder de dar nome ao mundo. O lexicon, discurso como fundamento da política e do poder de nomear, do poder de produzir conhecimento, do poder de fazer-se ouvir está historicamente restrito aos homens, brancos, heterossexuais, cisgênero, de classe alta, tal qual o autor deste livro.

Uma economia da credibilidade: o lugar de fala

A democratização da “fala” passa necessariamente pela construção de mecanismos conceituais que, em primeiro lugar, denunciem as impossibilidades de fala e de escuta, as limitações materiais, formativas, linguísticas e sociais que impõem aos corpos estigmatizados o silêncio e, principalmente, que denunciem as desigualdades nas relações de poder.

O conceito de “lugar de fala” é esse mecanismo; ele aponta em dois sentidos importantíssimos em relação aos sujeitos privilegiados: que as trajetórias importam na construção dos discursos, e que portanto a fala de alguém que viveu em condições privilegiadas pode estar atravessada por suas condições de privilégio, seja em sua enunciação, seja em seus efeitos.

Segundo, que as pessoas privilegiadas precisam estar atentas ao silêncio produzido por suas vozes em relação aos que não possuem os mesmos privilégios. E em relação aos sujeitos historicamente marginalizados, que é preciso produzir sentido sobre o mundo, ou seja, que se por anos nossas experiências e nossas formas de ser foram nomeadas e lidas pela norma, é preciso, então, que tomemos para nós a capacidade de nomear nossos corpos, práticas, identidades e formas de conceber o mundo.

A centralidade da trajetória/vivência para o entendimento do “lugar de fala” não pode ser confundida com a essencialização destas categorias e sua articulação em nível ontológico, na produção de uma relação de destino inescapável entre o “eu” e o que vivi. Se tudo o que vivi, a forma como fui socializada e as experiências que tive ao longo da minha vida são exatamente tudo o que eu “sou”, então não há possibilidade nenhuma de mudança ou de deslocamento. É preciso entender que as nossas experiências, interações e formas de ser são apenas um dos muitos elementos que constituem nossas formas de estar no mundo, nossos posicionamentos políticos e nossa ética política.

É neste sentido, de que a vivência/experiência não é o critério absoluto do conhecimento, e de que é possível apreender as realidades distintas das minhas que, do ponto de vista epistemológico, é possível que homens pensam sobre as questões das mulheres e de que pessoas cisgênero pensem sobre as questões trans e etc. É estrategicamente importante, penso eu, que o caráter falho e não essencial dos processos de socialização sejam entendidos, isso para que não corramos o risco de produzir uma reessencialização dos sujeitos, desta vez partindo do mote da opressão, criando, então, a figura do opressor ontológico e do oprimido ontológico, de identidades imóveis, fixas e puras. E da transformação da experiência não-normativa em uma forma mística, tutelada e de pureza apriorística.

Linchamento virtual

Esse é outro tema bastante polêmico no livro. Afinal, existe ou não linchamento virtual? Eu penso que existe e pretendo expor nesta resenha o porquê.

O linchamento articula um juízo apriorístico, porém nem todos os linchadores partilham de convicções capazes de produzir um juízo. Ao contrário, são mobilizados pelo grito, são instados a tomar partido em segundos sob o risco de tornarem-se alvos do linchamento. Afinal, a turba furiosa não é capaz de distinguir, de maneira que não há voz que se faça ouvir em meio a um linchamento além daquela que primeiro gritou “Pega ladrão!”. O linchamento ensurdece e dificilmente pode ser contido. Nele, também não há espaço para a verdade e nem para a defesa.

Não há sempre no linchamento uma desigualdade fundamental de poder entre o linchado e os linchadores. Há, como nos revela o sociólogo José de Souza Martins, inúmeros casos de linchamentos de políticos e de sujeitos que ocupavam espaços de “poder”, e qualquer um pode ser vítima de um linchamento. Ainda segundo Martins, os linchamentos costumam surgir como formas de “justiça popular”, frente à descrença na Justiça ou nas instituições, e possuem o caráter de ” vingança pedagógica” por uma espécie de “transgressão moral”. É preciso, para que eles ocorram, que haja uma sociedade linchadora marcada pelas tentativas de impor ou preservar valores, códigos e condutas morais que, partem, sempre, de um policiamento.

O linchamento precisa de um espaço em que ele possa ocorrer. Toda e qualquer pessoa pode ser alvo dele. Não há espaço para defesa, é de caráter pretensamente pedagógico, é ritualístico; exige, não do linchado, mas do mundo em geral, uma ação, um pedido de desculpas. Estas características são observáveis no Facebook, não são? Desse modo é que acredito ser possível falar em “linchamento virtual” – afinal, as formas de patrulhamento e controle das condutas de todos é imensa. Uma palavra dita fora de lugar, que aparente transgredir certa moral muito em voga por essas terras virtuais, pode nos tornar alvo de campanhas de difamação, e do ódio de pessoas que nem sequer nos conhecem. As justificativas? Sempre um não posso deixar passar em branco análogo ao justiçamento realizado por aquele que deixou de crer nas possibilidades institucionais da Justiça.

Obviamente é preciso entender o lugar que a internet e as redes sociais ocupam na vida das pessoas e no mundo atual. O livro de Bosco nomeia de “novo espaço público brasileiro”,o que me parece muito acertado. Em primeiro lugar porque nessas redes conectam-se famílias, emprego, escola, vizinhos, conhecidos; ela não é, como foram as salas de bate papo nos anos 2000, um pedaço à parte do mundo, um mundo de faz-de-conta, de mentirinha.

A internet, sobretudo o ambiente das redes sociais, é absolutamente real. A oposição “real x virtual” simplesmente não faz sentido, de maneira que tudo aquilo que ocorre em uma rede social virtual terá, inevitavelmente, algum impacto na vida cotidiana e “material” das pessoas. A velocidade, a facilidade e as possibilidades de expressão, denúncia e interação, são muito diferentes na internet e fora dela; é mais fácil e responde a uma outra hierarquização, ainda que atravessado pelo ódio e pelas violências que encontramos fora deste ambiente.

O estatuto da vítima

A vítima sempre tem razão? Este questionamento que aparece na capa do livro, polemista num sentido, provocativo em outro e performativamente despolitizante, talvez? Certamente é ao título que faço as minhas mais duras críticas. Afinal, o tom sugerido por ele, incendiário, controverso e polêmico, não é o mesmo do livro. A promessa do título é de um conteúdo que mobiliza afetos radicais, ao passo que o encontro com o texto é de sobriedade, de tom ameno e leitura tranquila. Por isso mesmo, penso que seja despolitizante, afinal, um título incendiário contamina a audição e os olhos do interlocutor de tal forma que a leitura é prejudicada desde a partida.

Entretanto, a questão da vítima não é uma novidade na filosofia. De Lacan a Daniele Giglioli, passando por Kristeva e René Girard, o estatuto e efeitos da condição de vítima é posta em questão. Não é exatamente uma nova polêmica ou uma nova questão.

No evento de lançamento deste livro, em São Paulo, em que participei como debatedora junto com a psicanalista Maria Rita Kehl, abordamos os perigos de se fundar, na noção de vítima, uma ética política específica. Kehl nos brinda com a reflexão, com a qual concordo em partes, e que transcrevo aqui:

“Pra nós mulheres, essa premissa de que temos sempre razão devia nos ofender. Em primeiro lugar porque faz de nós umas boazinhas, bobinhas, que nós não somos. Segundo porque faz de nós seres sem contradição que não somos. Quer dizer, a gente vira objeto do outro lado. E embora as feministas (algumas, evidentemente) possam achar que isso restaura a nossa dignidade, eu acho que não. Porque ninguém quer ser boazinha, bobinha; ninguém quer ser vítima passiva. […] Nessa premissa de “A vítima tem sempre razão?”, as mulheres continuam no lugar do qual a minha geração lutou muito pra sair: de sujeitos capazes de se defender, de dizer o que querem (a não ser evidentemente em situações de abuso físico), de se haver com contradições, e de fazer mal para os homens também, né? Quantos homens eu já fiz sofrer, quantos homens eu já abusei? […] Então eu acho que essa generalização […] esse tipo de política […] convoca em nós […] o ressentimento. A ideia de que todos nós somos prejudicados porque somos indefesos, porque alguém mais forte está nos prejudicando, e alguém vai ter que pagar por isso.”

Obviamente, Kehl trata a questão da vítima, não desta ou daquela situação em particular, mas da ideia de uma vítima categórica e ontológica. Neste caso, é importante diferenciar que a condição de subalternidade ou de marginalização social em relação à dominação masculina não é igual a condição de vítima. Tomamos aqui a noção de vítima como objeto de um dano em específico, e não como classe ou como coletivo. A noção de vítima, diferente das noções de subalternidade, traz consigo o aspecto da fragilidade, do indefeso, e não da potência contida. O nascimento de um estatuto político da vítima para os movimentos sociais pode ser um caminho profundamente equivocado, afinal, a condição de vítima transforma o outro automaticamente em algoz. É preciso olhar a produção de sentido, não apenas em relação a si mesmo, mas principalmente em relação aos efeitos que produz e instaura sobre os sujeitos vitimados. Uma espécie de tutela que nada tem a ver com liberdade, com o reconhecimento da humanidade e das contradições. É este o argumento de Kehl, com o qual concordo. E é apenas neste sentido que tenho acordo com a discussão travada no livro.

Um homem, branco, heterossexual, cisgênero e de classe alta?

Não poderia deixar de tratar o lugar em que se localiza o autor. Afinal, se as trajetórias importam na composição do discurso, então é preciso considerá-las, neste caso, principalmente, porque as críticas feitas a este livro tem como mote central a intrusão de um sujeito privilegiado, nas lutas travadas por sujeitos historicamente marginalizados. Não me distancio muito dos que criticam, e nesse sentido é inegável o incômodo que me causa ler algumas das reflexões empreendidas no livro.

Entretanto, fiz uma opção de leitura do texto: considerar seu conteúdo antes de considerar seu autor e tentar ler a validade, a lógica e a coerências das críticas construídas. E, bem, concordo com boa parte delas.

Não é possível, penso, apesar das concordâncias que tenho com o conjunto de críticas construídas por Bosco, desconsiderar que o texto será frequentemente usado para deslegitimar essa ou aquela luta. De modo que ou nos apropriamos do texto, seja para refutá-lo, seja para concordar com ele, ou então ele será instrumento dos que se opõem às lutas por uma sociedade livre do machismo, do racismo e da LGBTfobia.

Breve digressão: o que é uma crítica?

Tenho, com frequência, absoluta tranquilidade em lidar com as críticas feitas aos movimentos identitários, sobretudo, ao ativismo trans e ao transfeminismo. Primeiro porque considero crítica a postura não-destrutiva e não opositora em termos de princípio, ou seja, lido muito bem com as críticas que problematizam as formas e estratégias com que as lutas se constituem, porém, não tenho razão para considerar as que partem do pressuposto de que as lutas dos sujeitos subalternizados não tenham razão de ser, ou não tenham qualquer relevância.

Penso que essa separação seja sempre muito importante, pois evidencia o caráter aliado da primeira forma de crítica e o caráter opositor/destrutivo da segunda forma. As primeiras são geralmente feitas por pessoas do mesmo campo político. A segunda, por conservadores.

Obviamente, as críticas feitas com boas intenções podem nos causar desconforto ou soarem ilegítimas, polemistas ou afrontosas. E isso é bom para que ninguém se magoe, é fundamental que tenhamos no horizonte a possibilidade de discordar da crítica. Não há, só porque feita por aliados, qualquer obrigação de concordância ou mesmo de reverência.

Há, penso eu, na concepção de “movimentos” ou “lutas” um caráter de ação, de acontecimento, não-séssil. Não é de um conjunto imóvel de pressupostos que se constitui um movimento, mas sobretudo na marcha das ideias promovida pela postura sempre alerta em relação ao mundo e às nossas práticas; na atualização frequente das formas de dominação que se subjetivam em nossos corpos e mentes e que nos convertem, no âmbito de nossos micro-poderes, em médium de incorporação das estruturas e das formas de dominação do mundo macro.

De tal modo que é preciso que nos interroguemos sempre acerca de nossos métodos, estratégias e formas de agir. Em primeiro lugar, interrogação acerca do quão efetivos são os resultados alcançados, e em segundo lugar, de quais são os efeitos dessas estratégias em nossas relações com o mundo, e entre nós mesmos.

Não nos enganemos: a nossa posição no mundo, de sujeitos em contradição com a ordem normativa não nos “salva” da captura imaginativa das forças do capital, do neoliberalismo e da Norma. Eles são sempre muito inventivos e construíram um enquadramento da racionalidade ao qual estamos, invariavelmente, submetidos, de modo que ou duvidamos sempre de nossas formas de agir no mundo, ou nos pegaremos em algum momento sendo o médium que contamina as formas de resistência.

As críticas podem servir de sinal, de um chamado para a reflexão, uma vez que nos move seja na reflexão para sua contestação, seja na comparação entre a crítica e nossa percepção sobre o Real.

Existe, antes de qualquer reação a uma crítica a responsabilidade de tentar entender. Qualquer coisa menos do que isso é fugir a nossa tarefa histórica de construção de um mundo onde caibamos todos.

E aos críticos, como Bosco, é preciso perceber sempre a natureza dos incômodos e dar-se conta de que, se sua crítica envolve a banalização dos pressupostos de luta ou de transformação por meio da luta, ela não é bem vinda, como bem pontuou Rosa Luxemburgo em texto sobre crítica e auto-crítica. Neste caso, as críticas expressas neste livro, ao menos como percebo, são bem vindas, apesar dos incômodos legítimos que causa.

Em nome da pluralidade

É possível conhecer a dinâmica dos ditos “movimentos identitários” somente através deste livro? É possível ter um panorama inicial, com abordagem específica e brasileira. Recomendo que sejam lidas também as autoras negras, mulheres cis e trans que tem refletido sobre a questão das opressões na sociedade brasileira, sobre as dinâmicas de poder.

Em nome da pluralidade é preciso que essas vozes todas sejam lidas, independente do incômodo que podem causar, e obviamente é profundamente importante que comecemos a ler autoras negras, mulheres cis e trans, deficientes, trabalhadores, porque são esses olhares que se localizam em outro lugar no mundo, que podem apontar para os “da norma” um rumo ainda não enxergado pelas cabeças e vozes de sempre.

Recomendo, aqui, quatro livros que considero muito importantes para a compreensão das lutas por reconhecimento: O que é lugar de fala, de Djamila Ribeiro; Travestis na Escola: assujeitamento e resistência a ordem normativa, de Luma Nogueira de Andrade; Transfemenismo: teorias e práticas, organizado por Jaqueline Gomes de Jesus; E se eu fosse puta?, de Amara Moira, além dos textos de Jota Mombaça.


HELENA VIEIRA é escritora e pesquisadora do Núcleo de Políticas de Gênero da Unilab

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